O que é correlação entre ativos
Entenda como a correlação entre ativos funciona, por que é importante para diversificação e como usar esse conceito para construir um portfólio mais equilibrado.
Você já percebeu que alguns ativos tendem a se mover juntos, enquanto outros se movem em direções opostas? Isso não é coincidência – é correlação.
O que é correlação?
Correlação é uma medida estatística que indica o grau em que dois ativos se movem em relação um ao outro. Em termos simples:
- Correlação positiva = ativos sobem e descem juntos
- Correlação negativa = quando um sobe, o outro tende a cair
- Sem correlação = movimentos independentes
Como a correlação é medida?
O coeficiente de correlação varia de -1 a +1:
Correlação Positiva (+1 a +0.5)
Ativos se movem na mesma direção.
Exemplo: Ações de bancos brasileiros tendem a ter correlação positiva alta entre si. Quando o setor bancário sobe, a maioria dos bancos sobe junto.
- +1.0 = correlação perfeita (raríssimo)
- +0.7 a +0.9 = correlação forte
- +0.5 a +0.7 = correlação moderada
Correlação Negativa (-1 a -0.5)
Ativos se movem em direções opostas.
Exemplo: Historicamente, ouro e dólar costumam ter correlação negativa. Quando o dólar cai, o ouro tende a subir.
- -1.0 = correlação negativa perfeita (raríssimo)
- -0.7 a -0.9 = correlação negativa forte
- -0.5 a -0.7 = correlação negativa moderada
Sem Correlação (próximo de 0)
Os ativos se movem independentemente.
Exemplo: Ações de tecnologia brasileiras e preço do trigo podem ter correlação próxima a zero – não há relação clara entre seus movimentos.
Por que correlação é importante?
1. Diversificação real
Muitas pessoas pensam que estão diversificadas por ter 10 ações diferentes. Mas se todas têm correlação alta, você não está realmente diversificado.
Cenário 1 – Diversificação ilusória:
- 5 ações de bancos
- 3 ações de construtoras
- 2 ações de varejo
Todos esses setores têm alta correlação com a economia doméstica. Se a economia desacelerar, todos caem juntos.
Cenário 2 – Diversificação real:
- Ações brasileiras
- Ações americanas
- Títulos públicos
- Ouro
Esses ativos têm correlações diferentes entre si, oferecendo proteção real.
2. Redução de risco
O objetivo não é evitar volatilidade – é reduzir a volatilidade do portfólio como um todo.
Quando você combina ativos com correlações baixas ou negativas, os movimentos se compensam parcialmente, resultando em menos oscilação total.
3. Otimização de retorno ajustado ao risco
Com correlação adequada, você pode buscar o mesmo retorno esperado com menos risco, ou maior retorno para o mesmo nível de risco.
Correlação e liquidez
É importante lembrar que a liquidez também afeta correlação:
Em mercados normais:
- Correlações tendem a seguir padrões históricos
- Ativos descorrelacionados mantêm independência
Em crises:
- Correlações aumentam drasticamente
- Quase tudo cai junto
- Liquidez seca e todos vendem tudo
Isso é chamado de “quebra de correlação” – quando as relações históricas deixam de funcionar temporariamente.
Como usar correlação na prática
1. Escolha de ativos complementares
Ao adicionar um ativo ao portfólio, pergunte:
- Qual a correlação com meus ativos atuais?
- Esse ativo adiciona diversificação real?
Se você já tem muito peso em tech brasileira, adicionar mais tech não diversifica. Considere setores ou países diferentes.
2. Balanceamento por correlação
Evite concentração em ativos correlacionados:
Ruim:
- 40% em PETR4
- 30% em VALE3
- 30% em ITUB4
Embora sejam empresas diferentes, commodities e bancos têm correlação com ciclo econômico.
Melhor:
- 30% ações Brasil (diversificadas)
- 30% ações EUA
- 20% renda fixa
- 20% alternativos (REITs, ouro, etc)
3. Hedge através de correlação negativa
Alguns investidores usam correlação negativa para proteção:
- Comprar ouro quando tem muita exposição a ações
- Ter títulos públicos longos como contrapeso a ações
- Usar ativos que se beneficiam de volatilidade quando o portfólio é muito exposto a risco
Correlação não é estática
Importante: Correlações mudam com o tempo!
Fatores que afetam correlação:
- Ciclo econômico – Recessões aumentam correlações
- Globalização – Mercados cada vez mais correlacionados
- Eventos sistêmicos – Crises financeiras quebram padrões
- Mudanças estruturais – Setores que antes eram independentes podem convergir
Exemplo histórico:
- Antes de 2008: Ações americanas e brasileiras tinham correlação moderada (~0.5)
- Durante 2008: Correlação subiu para ~0.9 (tudo caiu junto)
- Anos seguintes: Voltou gradualmente para ~0.6-0.7
Armadilhas comuns
1. Assumir que correlação histórica se mantém
Só porque dois ativos tiveram correlação baixa nos últimos 5 anos não garante que continuarão assim.
2. Ignorar correlação em crises
Em momentos de pânico, quase tudo fica correlacionado. Diversificação ajuda, mas não elimina perdas em crises.
3. Over-diversificar buscando correlação zero
Ter 50 ativos diferentes com correlação baixa pode parecer ideal, mas:
- Dificulta acompanhamento
- Aumenta custos
- Diluição excessiva de retornos
Um meio-termo é melhor: 5-15 ativos bem escolhidos com correlações adequadas.
Como verificar correlação
Algumas formas práticas:
Análise visual
Compare gráficos de preços lado a lado. Se movem juntos? Direções opostas? Independentes?
Calculadoras online
Diversos sites calculam correlação entre ativos baseado em dados históricos.
Plataformas de análise
Plataformas profissionais geralmente têm matrizes de correlação que mostram relações entre múltiplos ativos.
Correlação vs Causalidade
ATENÇÃO: Correlação ≠ Causalidade
Dois ativos podem ter correlação alta sem que um cause o movimento do outro. Ambos podem estar reagindo a um terceiro fator.
Exemplo:
- Ações de varejo e ações de construção podem subir juntas
- Não é porque varejo sobe que construção sobe
- Ambas reagem ao mesmo fator: economia aquecida
Correlação em diferentes classes de ativos
Ações x Ações
- Mesmo setor: Correlação alta (+0.7 a +0.9)
- Setores diferentes: Correlação moderada (+0.3 a +0.6)
- Países diferentes: Correlação variável (+0.3 a +0.7)
Ações x Renda Fixa
- Ações x Títulos curtos: Correlação baixa ou negativa
- Ações x Títulos longos: Correlação pode variar muito
Ações x Commodities
- Ações x Ouro: Geralmente negativa (-0.1 a -0.3)
- Ações x Petróleo: Depende do país (Brasil: positiva)
Criptomoedas x Ativos tradicionais
- Historicamente baixa correlação
- Vem aumentando nos últimos anos
- Em crises, correlação dispara
Conclusão
Correlação é uma ferramenta poderosa para construir portfólios mais resilientes. Entender como seus ativos se relacionam permite:
- Diversificação real, não apenas nominal
- Redução de volatilidade do portfólio
- Melhor relação risco-retorno
Princípios práticos:
- Não basta ter muitos ativos – eles precisam ter correlações diferentes
- Correlação muda com o tempo – revise periodicamente
- Em crises, correlações aumentam – tenha isso em mente
- Combine correlação com análise de liquidez e volatilidade
Nos próximos artigos, vamos explorar conceitos complementares como capitalização de mercado e tipos de ordens, que combinados com correlação ajudam a construir estratégias mais sólidas.
Este conteúdo é educacional e não constitui recomendação de investimento.
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